Crítica:
Lembram-se do “Almoço de 15 de Agosto”, a história do romano que dá por si a tomar conta de quatro velhotas que lhe dão água pela barba durante um fim-de-semana de ponte?
Gianni di Gregorio, o realizador, argumentista e actor desse sucesso-surpresa do cinema italiano recente, está de volta. O seu panhonha de quem as velhotas faziam gato-sapato é agora um panhonha reformado de quem todas as mulheres que lhe passam pela frente, da mãe à filha passando pelas vizinhas e ex-namoradas, faz gato-sapato, em “Gianni e le Donne” (Berlinale Special, fora de concurso).
À imagem do “Almoço”, é um filme que recupera a mordacidade da comédia italiana e a cruza com um registo observacional peculiarmente moderno que esvazia os lugares-comuns da sedução e do romance e aborda com particular pungência a questão do envelhecimento.
Di Gregorio, de novo intérprete do seu filme, não quer ser o “avôzinho” de ninguém nem mais um velho que vai passear o cão à rua. O humor do filme nasce dessa relutância em envelhecer sabiamente, da justaposição entre o olhar “transparente” das mulheres sobre ele e o olhar deslumbrado dele sobre elas.
Podíamos falar de Truffaut – e Gianni é, à imagem de Charles Denner num dos seus filmes mais célebres, um “homem que gostava de mulheres”, para além do filme se chamar “Gianni e as Mulheres”. Mas o quadro de referências de Di Gregorio é outro, mais próximo da comédia clássica transalpina .
Além disso, os problemas de “Gianni e le Donne” são os mesmos do “Almoço de 15 de Agosto” - a sensação de que estamos a ver uma piada esticada ao seu limite, sobretudo numa parte final algo desconjuntada, e de que a truculência leva a palma ao desencanto e, no processo, se perde algum fôlego.
Mas este é também um filme mais ambicioso e menos casual que o seu predecessor, mais escrito onde o anterior era mais improvisado. E é claramente neste humor muito personalizado, que evoca a espaços o modo como Nanni Moretti se encenou a si próprio no “Querido Diário” e em “Abril”, que Gianni di Gregorio se sente em casa.
Fonte:BestCine/Ipsilon
Realizador: Gianni Di Gregorio
Argumento: Gianni Di Gregorio, Valerio Attanasio
Intérpretes: Gianni Di Gregorio, Valeria De Franciscis, Alfonso Santagata, Elisabetta Piccolomini, Valeria Cavalli, Aylin Prandi, Kristina Cepraga, Michelangelo Ciminale, Teresa Di Gregorio
Estreia Mundial: 2011
Estreia em Portugal: 14 de Julho de 2011
Mais Info: IMDB
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