“Le Nom des Gens” é provavelmente uma das experiências mais singulares que o cinema comercial francês proporcionou nestes últimos anos. Trata-se de uma grande mistura dinâmica do panorama político-social (o eterno conflito direita-esquerda, o “nome das pessoas” como rótulo da origem étnica e de classe), de comédia romântica improvável e principalmente de uma noção de espaço tipicamente teatral sobreposta à narração tipicamente literária.
Sinopse:
Bahia Benmahmoud (Sara Forestier), uma jovem mulher extrovertida, é comprometida com os seus ideais políticos: sem limites, ela não hesita em fazer sexo com os seus inimigos para convertê-los à sua visão política, o que significa, potencialmente, muita gente, porque, em suma, todas as pessoas de direita representam a sua causa.
Ela costuma ter bons resultados, até o dia em que encontra Arthur Martin (Jacques Gamblin)…
Crítica:
Arthur Martin parece um homem conformista, de direita, mas não é exatamente assim. Bahia Benmahmoud parece uma mulher radical, uma burguesa de esquerda com certa vergonha de seu patrimônio, mas não é de fato. Este filme se parece inicialmente com uma comédia verborrágica à la Woody Allen, ou então uma comédia do absurdo ou ainda uma análise da política na França. Mas não é nada disso.
Le Nom des Gens (“o nome das pessoas”, em tradução livre) é provavelmente uma das experiências mais singulares que o cinema comercial francês proporcionou nestes últimos anos. Trata-se de uma grande mistura dinâmica de panorama político-social (o eterno conflito direita-esquerda, o “nome das pessoas” como rótulo da origem étnica e de classe), de comédia romântica improvável e principalmente de uma noção de espaço tipicamente teatral sobreposta à narração tipicamente literária.
O resultado é uma confluência estética e narrativa ímpar. A protagonista, abusada sexualmente na infância, admite que “na adolescência, não transava com ninguém para não perceberem que eu tinha um problema com o sexo. Depois, transava com todo mundo para não perceberem que tinha um problema com o sexo”. Esse tipo de paralelo construído e literário continua com a apresentação da família, vista por um ponto bastante psicanalítico: “Este é o meu pai, que trabalhava como um louco para não faltar nada em casa, a não ser a presença de um pai, que trabalhava como um louco para não faltar nada em casa”. Lógicas perversas e um enorme prazer da palavra estão impregnados neste espetáculo de nomes, termos e definições - que talvez só tenha sido visto recentemente em outras produções internacionais igualmente extraterrestres como Policial, Adjetivo.
Tudo é portanto uma questão de desconstrução dos rótulos. Enquanto a garota de esquerda transa com homens de direita para convertê-los à sua causa, o homem talvez de direita segura animais mortos enquanto descobre que sua própria mãe morreu. A esquerda pode se converter com o sexo (“mas para a extrema-direita, eu preciso de bastante tempo”, sublinha a garota), o ganso morto nas mãos exprime o sentimento de se carregar o cadáver materno. Num registro próximo ao do realismo fantástico, este roteiro se apóia nos fatos mais palpáveis da política francesa (eleições de 2007, situação dos partidos majoritários e política de imigração) para propor um comportamento social comicamente inverossímil (a garota nua no metrô). Todos os elementos são metáforas, metonímias, paradoxos, e mesmo os personagens com seus nomes são estigmatizados por outros símbolos. Talvez o grande tema desta história seja mesmo o uso social da linguagem.
Quando o político de esquerda Lionel Jospin aparece em cena no papel de si próprio, o círculo se fecha e o absurdo atinge o seu clímax : “este não é Lionel Jospin”, grita incrédulo o personagem fã, como René Magritte diria que este não é um cachimbo. Aqui, nada é o que parece, não no sentido de falsidade (não há falsos rumos ou manipulações explícitas com fins pedagógicos), mas no sentido e aparência e essência. Esta dualidade aplicada tanto ao cinema quanto à França acaba por construir um dos mais improváveis e mais pertinentes retratos do efeito da imagem na sociedade, e da sociedade na imagem.
Fonte:BestCine/ Discurso-Imagem
Realizador: Michel Leclerc
Argumento: Michel Leclerc, Baya Kasmi
Intérpretes: Sara Forestier, Jacques Gamblin, Zinedine Soualem, Carole Franck, Jacques Boudet, Michèle Moretti, Zakariya Gouram, Julia Vaidis-Bogard, Adrien Stoclet
Estreia Mundial: 2010
Estreia em Portugal: sem data prevista
Mais Info: IMDB
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